Professores do passado enloquecem em salas de aula do presente
Há pouco tempo li um artigo sobre termos que aprender
a dar aulas para alunos conectados. Esse assunto merece mesmo ser comentado. Os
professores andam numa indignação só, pois não conseguem controlar os
celulares, notebooks e tablets dos alunos. Isso sem falar no ctrlC ctrlV que enlouquece todos nós. Tenho
presenciado também um esforço dos docentes em reforçar a legislação anti plágio
e de procurar sanções para os alunos que insistem na ideia de que digitar no google substitui o que chamamos de
pesquisa.
O que posso contribuir é contar minha própria
trajetória, que em resumo vai de impedir que aluno atendesse o celular em sala
até sugerir, durante uma prova de filosofia, que ele ligasse para algum
filósofo e o consultasse.
Vamos pensar juntos a seguinte questão prática: o que
funciona mais: pedir uma pesquisa sobre epistemologia da complexidade e receber
trocentos textos copiados, recortados
ou emaranhados sobre o tema e ter que se desgastar acusando os alunos de
plágio, ou lançar a pergunta ‘ vamos ver o que vocês encontram sobre
epistemologia da complexidade’ e depois trazer as ideias para um debate onde o
aluno, falante ou calado, tem chances bem maiores de construir uma opinião.
Questão prática número dois: o aluno está diante de
uma prova. Se ele não sabe uma questão, é melhor errar logo ou conseguir
descobrir a resposta no google ou no
celular? Onde está a maior chance dele aprender alguma coisa?
Outra: não é muito melhor deixá-los encontrar
informações contraditórias, coisas certas e coisas erradas emboladas, e
mostrar-lhes como é bom se desembolar esse fio com critérios racionais e
científicos que têm gerados resultados mais seguros desde a Antiguidade?
Posso enumerar muitas outras questões, mas a principal
é termos uma didática para o aluno que temos, e não para o aluno que
idealizamos.
Com a chegada do celular, muitas providências que
tomávamos com antecipação passaram a ser resolvidas na hora, dada a
possibilidade de comunicação fácil. Se impedimos isso, estamos nos portando de forma
antagônica a deixar o aluno numa zona de conforto psicológico, propícia ao aprendizado. Estamos provocando uma desestabilização,
quando era tão mais produtivo deixá-lo à vontade.
Quanto à internet, é notório que ela disponibiliza, de
forma significativamente otimizada, todos os tipos de produtos da linguagem. Essa
instantaneidade mudou o ambiente do mundo contemporâneo, agilizou a
comunicação, criou outras expectativas de se relacionar, de aprender, de
consumir e de se divertir.
Na rede é possível falar coisas boas, falar besteira, achar
conteúdos aproveitáveis e montoeiras de lixo, ter acesso a imagens
enriquecedoras e sublimes e a imagens repetitivas, cansativas e inúteis. Sempre
há inteligência e burrice lado a lado, como no mundo real. Tudo que podemos
fazer com a linguagem – de ensinar a mentir – é feito de forma mais intensa e
rápida na internet.
Mas temos que considerar que o lado útil da internet é
tão substancial que não faz sentido abrir mão dele por razões pedagógicas que
não se sustentam mais. Se o nosso esforço educativo é no sentido de fazer o
aluno apreender, entre sínteses e análises, os aspectos do mundo, a internet é
nossa maior aliada, pois é um painel de livre acesso à mais variada gama de
aspectos humanos. Para apresentar
painéis assim antes, seriam necessários meses dentro de bibliotecas e museus.
Imagine um professor pedindo isso a seus alunos?
Lembro-me do caso bem ilustrativo de um aluno da
pré-escola que achava as figuras impressas que a professora lhe dava para colorir
ridículas frente ao que ele já sabia fazer no computador com o paint brush. A professora em questão,
mergulhada na pedagogia do passado, perdeu a atenção de um menino de quatro anos
por pura desatualização. E vejo isso se repetir nas salas de aula da
Universidade.
Em vez de se concentrar em vigiar e punir o aluno, nós
professores podíamos nos concentrar em evidenciar o que há de interessante em
saber das coisas, em descobrir fatos e em entender o que estamos fazendo. Se os
alunos forem seres humanos como nós, com cérebro e sistema nervoso funcionando,
não precisaremos fazer muito esforço para isso, pois todo conhecimento já nasce
de algo que, em algum momento, nos intriga.
Nenhum comentário:
Postar um comentário