terça-feira, 4 de março de 2014



Professores do passado enloquecem em salas de aula do presente

Há pouco tempo li um artigo sobre termos que aprender a dar aulas para alunos conectados. Esse assunto merece mesmo ser comentado. Os professores andam numa indignação só, pois não conseguem controlar os celulares, notebooks e tablets dos alunos. Isso sem falar no ctrlC ctrlV que enlouquece todos nós. Tenho presenciado também um esforço dos docentes em reforçar a legislação anti plágio e de procurar sanções para os alunos que insistem na ideia de que digitar no google substitui o que chamamos de pesquisa.
O que posso contribuir é contar minha própria trajetória, que em resumo vai de impedir que aluno atendesse o celular em sala até sugerir, durante uma prova de filosofia, que ele ligasse para algum filósofo e o consultasse.
Vamos pensar juntos a seguinte questão prática: o que funciona mais: pedir uma pesquisa sobre epistemologia da complexidade e receber trocentos textos copiados, recortados ou emaranhados sobre o tema e ter que se desgastar acusando os alunos de plágio, ou lançar a pergunta ‘ vamos ver o que vocês encontram sobre epistemologia da complexidade’ e depois trazer as ideias para um debate onde o aluno, falante ou calado, tem chances bem maiores de construir uma opinião.
Questão prática número dois: o aluno está diante de uma prova. Se ele não sabe uma questão, é melhor errar logo ou conseguir descobrir a resposta no google ou no celular? Onde está a maior chance dele aprender alguma coisa?
Outra: não é muito melhor deixá-los encontrar informações contraditórias, coisas certas e coisas erradas emboladas, e mostrar-lhes como é bom se desembolar esse fio com critérios racionais e científicos que têm gerados resultados mais seguros desde a Antiguidade?
Posso enumerar muitas outras questões, mas a principal é termos uma didática para o aluno que temos, e não para o aluno que idealizamos.
Com a chegada do celular, muitas providências que tomávamos com antecipação passaram a ser resolvidas na hora, dada a possibilidade de comunicação fácil. Se impedimos isso, estamos nos portando de forma antagônica a deixar o aluno numa zona de conforto  psicológico, propícia ao aprendizado.  Estamos provocando uma desestabilização, quando era tão mais produtivo deixá-lo à vontade.
Quanto à internet, é notório que ela disponibiliza, de forma significativamente otimizada, todos os tipos de produtos da linguagem. Essa instantaneidade mudou o ambiente do mundo contemporâneo, agilizou a comunicação, criou outras expectativas de se relacionar, de aprender, de consumir e de se divertir.
Na rede é possível falar coisas boas, falar besteira, achar conteúdos aproveitáveis e montoeiras de lixo, ter acesso a imagens enriquecedoras e sublimes e a imagens repetitivas, cansativas e inúteis. Sempre há inteligência e burrice lado a lado, como no mundo real. Tudo que podemos fazer com a linguagem – de ensinar a mentir – é feito de forma mais intensa e rápida na internet.
Mas temos que considerar que o lado útil da internet é tão substancial que não faz sentido abrir mão dele por razões pedagógicas que não se sustentam mais. Se o nosso esforço educativo é no sentido de fazer o aluno apreender, entre sínteses e análises, os aspectos do mundo, a internet é nossa maior aliada, pois é um painel de livre acesso à mais variada gama de aspectos humanos.  Para apresentar painéis assim antes, seriam necessários meses dentro de bibliotecas e museus. Imagine um professor pedindo isso a seus alunos?
Lembro-me do caso bem ilustrativo de um aluno da pré-escola que achava as figuras impressas que a professora lhe dava para colorir ridículas frente ao que ele já sabia fazer no computador com o paint brush. A professora em questão, mergulhada na pedagogia do passado,  perdeu a atenção de um menino de quatro anos por pura desatualização. E vejo isso se repetir nas salas de aula da Universidade.
Em vez de se concentrar em vigiar e punir o aluno, nós professores podíamos nos concentrar em evidenciar o que há de interessante em saber das coisas, em descobrir fatos e em entender o que estamos fazendo. Se os alunos forem seres humanos como nós, com cérebro e sistema nervoso funcionando, não precisaremos fazer muito esforço para isso, pois todo conhecimento já nasce de algo que, em algum momento, nos intriga.

Nenhum comentário:

Postar um comentário